12.23.2009

Raça de dentro


















Não há nada a perdoar. Podemos ir buscar também o Nuno Assis, outro (ex-benfiquista) que depois de período difícil deu provas de ser um jogador mais competitivo. João Pereira foi despromovido, aguentou-se, apurou qualidades no Braga e mostrou sempre raça. E a raça não tem cor.

Hyper-dubbing


















Um dia é suficiente para que listas de "melhores" do ano ou da década fiquem desactualizadas. Basta um disco, para o efeito. E à semelhança do dominó vai abalar em cadeia o edifício que queríamos perfeito e terminado. Chama-se Waiting for You, pertence ao King Midas Sound do produtor Kevin Martin, a que se juntou colaboração vocal e nas composições de Roger Robinson. Não é obra revolucionária, longe disso. Mas actualiza muita da melhor música urbana, angustiada e tóxica, feita de batidas abafadas e lamentos espectrais, surgida com os primeiros Massive Attack e Tricky, e prolongada em trabalhos dos Spacek, de Charles Webster ou do genial Burial (William Bevan), cujos CD's lançados pela mesma Hyperdub, no caso de Burial, podiam juntar-se aos 20 títulos que destaquei dos últimos dez anos. Percebo por que Burial ficou esquecido. Tem a ver com a metodologia aplicada à(s) lista(s). Panorâmica sobre prateleiras que prejudica quem acabou alojado junto ao solo, ainda para mais descontando a existência de Untrue, o segundo Burial, que tenho num promocional sem caixa que fica espalmado e invisível entre os outros. Actualize-se então virtualmente as listas por obra e graça dos sons de Midas e Burial, cheios de estilo e absolutamente contemporâneos. Música da insónia que regressa para desassossegar a frágil ordem instalada.

12.22.2009

Multiópticas




















Sofro de disfunção óptica. Só pode ser. Alguém me explica para que serve o 3-D em Avatar? Notei um certo relevo, é verdade. O filtro azul-esverdeado que tingia todos os planos. Depois as legendas estavam ora focadas ora desfocadas. E se as personagens em primeiro plano se encontravam acertadas com o meu foco, todas as outras pareciam sofrer de uma distorção de espelhos, multiplicando o seu fantasma por cinco, seis, sete contornos. Uma canseira. Pus os óculos, tirei os óculos, falei para o lado, quase três horas nisto sem chegar a qualquer conclusão. E de caminho não percebendo também a razão de tanto alarido com o de longe pior filme de James Cameron de sempre. Qualquer fantasia de Hayao Miyazaki supera em arte e metafísica este pobre Avatar. Lembram-se do Princesa Mononoke? Eu sim. Avatar mais se assemelha a um cruzamento de Pocahontas com Star Wars, e até a memória de O Último Samurai (filme que estimo e que me assaltou várias vezes ao longo da sessão) chega por via da redução a um denominador juvenil. James Cameron já falou de exterminadores. Agora parece falar para a geração Gormiti.

12.21.2009

Qualidade francesa



















No penúltimo filme de Christophe Honoré, La Belle Persone, descobrimos a jovem actriz Léa Seydoux (seduz) e uma bibliotecária de liceu interpretada por Clotilde Hesme, chamada Mme. Tournon (turn on).

Natal em Baltimore

12.19.2009

Discos da década e discos do ano

Listas de música são as mais difíceis. Por isso demoram. Discos por ouvir, ali mesmo junto de nós, olhando-nos dos quatro cantos da sala. Outros que nem sabíamos estarem lá. Audições apressadas sob a responsabilidade imposta em época de balanços. Discos em cima de discos. Pilhas de CD's, entre pilhas de livros, carteira, papéis avulsos, contas por pagar, chaves, essas coisas que juntas se assemelham a uma ordem à beira do caos. Este foi o ano em que tomei contacto com as discografias dos White Stripes e de Mark Lanegan, que levei até adiantadas consequências. Das listas que se seguem não saltam coelhos da cartola. Há coisas previsíveis para quem me conhece. Os discos da década estão organizados por ordem cronológica. Os do ano obedecem a uma escala de preferência sempre precária. Ao contrário de nós, os gostos evoluem com alguma frequência. Entretanto, boas listas: quero ler as vossas.


















20 Melhores Discos da Década (2000/2009)

D'Angelo, Voodoo (2000)
William Basinski, The Disintegration Loops I-IV (2001-03)
The White Stripes, White Blood Cells (2001)
Los Hermanos, Bloco do Eu Sozinho (2001)
Zero 7, Simple Things (2001)
Beck, Sea Change (2002)
Queens of the Stone Age, Songs for the Deaf (2002)
David Sylvian, Blemish (2003)
Junior Boys, Last Exit (2004)
Vincent Delerm, Kensington Square (2004)
Harold Budd, Avalon Sutra (2004)
Telefon Tel Aviv, Map of What is Effortless (2004)
Mark Lanegan Band, Bubblegum (2004)
Richard Hawley, Cole's Corner (2005)
Smog, Supper (2005)
The National, Alligator (2005)
Stars of the Lid, And Their Refinement of the Decline (2007)
Marcelo Camelo, Sou (2008)
Thomas Feiner & Anywhen, The Opiates Revised (2008)
Portishead, 3 (2008)


20 Melhores Discos de 2009

20. Soulsavers, Broken
19. B Fachada, B Fachada
18. Blues Control, Local Flavor
17. The Dead Weather, Horehound
16. Samuel Úria, Nem Lhe Tocava
15. Dollar Llama, Under the Hurricane
14. Vladislav Delay, Tumma
13. Them Crooked Vultures, Them Crooked Vultures
12. God Help the Girl, God Help the Girl
11. Vincent Delerm, Quinze Chansons
10. Animal Collective, Merryweather Post Pavilion
9. Sunn O))), Monoliths & Dimensions
8. Jon Hassell, Last Night the Moon Came Dropping Its Clothes in the Street
7. Dan Auerbach, Keep it Hid
6. Bill Callahan, Sometimes I Wish We Were an Eagle
5. Grizzly Bear, Veckatimest
4. Prefab Sprout, Let's Change the World With Music
3. Dirty Projectors, Bitte Orca
2. Richard Hawley, Truelove's Gutter
1. David Sylvian, Manafon

12.17.2009

Menina caixão


























[e seus três cantoneiros].

Cinema. Doze escolhas para uma década (2000/2009)
















A ordem não obedece a qualquer critério. A escolha pretende traduzir um critério pessoal.


Blood Work, Clint Eastwood (2002)
A escolha mais difícil na década de platina do maior de todos.

Luzes no Crepúsculo, Aki Kaurismäki (2006)
Permanentemente à beira da lágrima e do sorriso. Kaurismäki renova a força primitiva do cinema. Que nasceu clandestino e falou para o coração universal.

The Life Aquatic With Steve Zissou, Wes Anderson (2004)
Qualquer pessoa que tenha brincado sozinha em criança, com o Lego, por exemplo, perceberá tudo o que há para perceber no universo de Wes Anderson. Ele está em todas as personagens.

A Última Hora, Spike Lee (2002)
O grande filme que Martin Scorsese não nos deu esta década foi assinado por um discípulo seu. Haverá sempre alguém que faça tão bem como nós.

5x2, François Ozon (2004)
Mais do que um filme para mim. A origem de todas as histórias que poderia filmar. A besta negra do destino.

Sideways, Alexander Payne (2004)
Mulheres, amizade e vinhos. Bebo a tudo isso e em particular à mais inofensiva das ressacas. A dos vinhos.

Eastern Promises, David Cronenberg (2007)
Cronenberg encontrou em Viggo Mortensen o corpo mais fascinante que alguma vez trabalhou. Corpo onde a violência se torna bela. Portador de histórias que ficam connosco quando os filmes acabam.

Ne touchez pas la hache, Jacques Rivette (2007)
Não há outro como este na década, que reúna o que de melhor existe na literatura, no teatro, e claro está no cinema. Rivette fá-lo com enorme delicadeza. Iluminação intensa e casta da intimidade.

Ghosts of Mars, John Carpenter (2001)
Musculado e misterioso. Metaleiro e abstracto.

Climas, Nuri Bilge Ceylan (2006)
Descoberta do raro cineasta suficientemente pessimista para poder ser um esteta.

Le Stade de Wimbledon, Mathieu Amalric (2001)
Ninguém reparou nele, coisa que faz todo o sentido. De Trieste até Londres, por entre os pingos da chuva. Acompanhando Jeanne Balibar.

In the Bedroom, Todd Field (2001)
A melhor primeira obra que o cinema americano nos deu desde a data da sua produção. Um sobre-Malick.

12.15.2009

Chama-me Tarzan




















Podemos não voltar a casa, mas é bom saber que existiu. Fim de terapia.

12.14.2009

Ele é o elo





















Dave Grohl é um tipo que me inspira simpatia. Disse-o e repito-o. O lugar de fundo nos Nirvana e nos Queens of the Stone Age bastavam para lhe dar uma entrada só dele na história do rock. Grohl quis mais e fez muito bem. Nos Foo Fighters começou por fazer sozinho. Fez o disco do luto pela morte de Cobain. Ao segundo disco, já com banda, o luto foi pelo final do seu casamento. Saiu um óptimo disco, o que até ao momento mais me impressionou dos Fighters*. Chama-se The Colour and the Shape, foi produzido por Gil Norton, profissional do rock que tem o pleno dos Pixies, e apresentou-se como possível elo que unirá a banda de Black Francis ao stoner rock, que não existiria também sem o grunge. Tudo o que venha em favor de Dave Grohl eu aprovo: sobretudo o que eu próprio especulo. Tal como me agrada saber pela entrevista que o músico deu à Mojo de Janeiro de 2010, que Bob Dylan gosta da canção Everlong presente em The Colour and the Shape. É uma grande canção, não haveria de passar despercebida ao pai de nós todos.

* a opinião vale o que vale vinda de alguém que começou por achar que o último Arctic Monkeys é que era, e que agora gosta mais dos dois primeiros (a devida penitência, meu caro Pedro Marques Lopes, e vemo-nos a 3 de Fevereiro, se não for antes).

To hell with Altman















Reúne num único filme o mais impressionante conjunto de talento e beleza, que ocasionalmente despe a seu bel-prazer, só para nos cantar depois "to hell with love".

Os melhores DVD's de 2009





















Desta vez apenas dois títulos, até porque não comprei muita coisa editada este ano. Mas, atenção, a recomendação que aqui vai vale por listas completas. A única coisa que aproxima estas séries é a excelência dos resultados. Um Mundo Catita é um prodígio de espírito, improviso, e desenrascanço à portuguesa. Mad Men é produto da melhor ficção televisiva de todas que é a norte-americana. Em ambas se entornam sem desperdício grandes quantidades de bebida: a bejeca e o Licor Beirão pelo lado Catita, e os melhores uísques sempre disponíveis nos gabinetes da Sterling Cooper. O documentário sobre a produção de Um Mundo Catita desfaz qualquer ideia que pudéssemos ter sobre a escassez de recursos. Recursos houve, alguns. O segredo esteve na adequação do que existia em relação ao que se quis fazer. Um Mundo Catita tira sobretudo partido da imaginação delirante e da recriação de um universo que tem muito de vivido (e de sobrevivido). É genial. A Mad Men não falta rigorosamente nada em matéria de valores de produção. É uma opulência que só visto. Mas que rapidamente relegamos para segundo lugar. Em Mad Men triunfa sobre tudo e sobre todos a qualidade da escrita servida pelo cast perfeito. Esta série é a inteligência filmada a cada instante. As complicações que as pessoas criam nas suas vidas nunca foram diferentes do que somos e do que outros foram antes de nós. O resto é guarda-roupa; ou a ausência dele. E isto aplica-se a estes dois mundos.

Sem favor





















B Fachada e Samuel Úria tinham discografia já feita, mas o hype projectado pelo Público foi de tal ordem que eu, invejoso, deixei esfriar a curiosidade. Até que ontem, encontrando-me no Colombo à espera de boleia, me pus a ouvir na Fnac o novo B Fachada, de título B Fachada. Soou bem, estava baratinho, e marchou. Não marchou sozinho. De impulso trouxe ainda Nem Lhe Tocava, do Úria. E mais umas coisinhas. Entretanto escutei os discos algumas vezes: Fachada pelo fim de tarde, Samuel noite dentro. O que posso dizer por agora é que meio a sério meio a brincar me levaram à certa. Samuel Úria e B Fachada são tipos com talento, que se apresentam como se falsamente o menosprezassem. Revelam-se desconcertantes: B Fachada parece um parente distante (lusitano) do novo tropicalismo, tal como é entendido pela banda de Moreno Veloso e suas variantes. E Samuel Úria assemelha-se a um baladeiro que vive o sonho americano encafuado na geografia da Grande Lisboa. Dois sofisticados que fazem questão de parecer figuras de tragicomédia, que acabamos levando a sério porque não somos surdos. E porque ambos fazem muito não exactamente boas canções.

12.11.2009

Fevereiro negro


























02.02.2010

O número mágico


























Tenho uma amiga que é a cara de um dos elementos dos Yo La Tengo, mas não é por isso que gosto deles. E passei a dar-lhes mais valor depois de tornar a perceber que um triplo-CD (há também o Orphans ou o 69 Love Songs) pode resultar numa taxa de total aproveitamento do seu material. O que sucede no caso de Prisioners of Love, ou o rock traduzido para a sensação de Verão que se demora em triplicado. Trouxe-o(s) hoje comigo.

12.10.2009

Iniciais B.B.


















Tudo em Benjamin Biolay tem aura de capricho. Começando pela sua imagem. Do capricho decorre o excesso, que alguns poderão considerar... excessivo. Escutem La Superbe e tirem as vossas conclusões. Eu já pensei uma e outra coisa, e hoje penso uma e a mesma coisa. Permito-me também esse capricho.

Os pontos específicos
















A coisa não bateu logo. Acabou de bater. Aliás, bateu só depois do almoço. Candy é um filme dividido em três partes – Céu, Terra, Inferno – que faz equivaler a vivência da droga com o estado da paixão. O tratamento é justo e não esquemático. A gente só toma consciência do paralelismo mais tarde. Enquanto o filme decorre limitamo-nos a acompanhar a banal história dos amantes condenados pela ingenuidade da entrega narcísica, irresponsável, e inconsequente. Aparentemente condenados pelo consumo da droga. De verdade condenados porque qualquer paixão fica ameaçada quando alguém não consegue fazê-la evoluir para algo que tenha menos a ver consigo do que com o outro. A euforia sentida por Dan (Heath Ledger, estupendo) e por Candy (Abbie Cornish, actriz que possui a fibra e alguns traços de Nicole Kidman) foi aquela que vários de nós terão alguma vez sentido. Depois vem a realidade, sob a forma da imposição dos caprichos: a ressaca do sentimento que nos deu essa sensação de poder ilusória. E finalmente a inevitável separação dos corpos, quando os Egos já se haviam separado anteriormente. Tudo isto é cliché, é tudo experiência universal. Onde Candy marca pontos específicos é nos atalhos da narrativa. Naquilo que é consequência lateral dos estados absolutos. O momento em que Dan se dirige a um amigo mais velho, homossexual (Casper/ Geoffrey Rush), perguntando-lhe sobre as expectativas dos homens quando recorrem a um prostituto. É que Dan acha que não conseguirá ter uma erecção com um homem, e isso pode comprometer os engates que se propõe fazer para obter dinheiro para a droga. Ou então na boa cena final, no restaurante onde Dan passa a trabalhar depois de se separar de Candy e de esta ter sido hospitalizada, quando a rapariga o visita e ele percebe que o que ambos viveram faz parte de um passado que não tem hipótese de ver-se actualizado. O tempo daquele sentimento havia-se esgotado, constituindo memória com que ambos se tinham de reconciliar. Sendo este Candy uma evocação – da mulher, de um tempo, daquela atribulada relação –, é na representação da tomada de consciência do que a passagem do tempo tem de relevante na sedimentação das memórias que o filme de Neil Armfield conquista a sua maioridade, torna-se adulto e ele próprio em parte (pontos específicos) memorável.

12.09.2009

Barreira de som





















São dois discos que definem o meu ano musical. Os Dollar Llama têm o melhor registo português de 2009. Stoner rock a escorrer para o metal e uma robustez que nunca esmorece, nem mesmo nos momentos mais melódicos. Para quem aprecia riffs poderosos e graves, os Dollar Llama garantem música de qualidade que transcende a sua geografia. Uma passagem basta para terraplanar qualquer preconceito. Já os Sunn O))) são americanos. Estão no centro do mundo, e da Terra. Mexem com os elementos. Operam lentamente o magma sonoro. Metem respeito. Metem medo. A gente ouve-os com cautela, quanto mais não seja quando estamos no movimento de aproximação. E o receio do culto só deixa de fazer sentido quando abandonamos o lado racional, para nos dispormos a sentir os sons. A sermos transformados por eles. É então que passamos a fazer parte do ritual, em vez de nele nos integrarmos. Os preconceitos que trazemos, não são aqui terraplanados, antes pacientemente desintegrados. O fim da matéria é o primado do espírito. Pode parecer pretensioso; os Sunn O))) podem até ser pretensiosos. Mas fazem-nos sentir especiais e ousados.

12.07.2009

Os melhores filmes estreados em sala em 2009


















Nenhum filme, como nenhum livro ou nenhum disco, ajuda verdadeiramente a viver. Mas os filmes e livros sobretudo, assim como alguns discos, que me interessam, são os que produzem a ilusão de que ajudam a viver. São objectos que iluminam aspectos recônditos dentro de nós, fazendo-nos sentir fortes e lúcidos, mesmo que por pouco tempo. Objectos que reforçam a nossa descrença nas virtudes da vida e, consequentemente, que fazem subir a nossa crença nos aspectos redentores do cinema, da literatura, e a um nível um pouco diferente, porque mais abstracto, da música também. Os filmes que me interessam têm relação directa com a qualidade das emoções que produzem, com o tipo de mundividência que assumem, e com a conduta moral de que dão exemplo. Até no seu realismo extremo, o cinema deve proporcionar uma qualquer transcendência: o despertar da nossa inteligência emocional; a empatia estabelecida com versões melhoradas de nós, projectadas a uma escala maior que a vida. Por ordem decrescente de preferência, foram estes os melhores filmes estreados que vi este ano.

1. Gran Torino, Clint Eastwood;
2. Duplo Amor, James Gray;
3. Ne Change Rien, Pedro Costa;
4. Tyson, James Toback;
5. Che: O Argentino/ Guerrilha, Steven Soderbergh;
6. Sacanas Sem Lei, Quentin Tarantino;
7. O Estranho Caso de Benjamin Button, David Fincher;
8. Inimigos Públicos, Michael Mann;
9. Os Limites do Controlo, Jim Jarmusch;
10. Morrer Como um Homem. João Pedro Rodrigues.

Próximas listas: Melhores discos de 2009. Melhores filmes da década. Melhores discos da década. Melhores DVD's de 2009.

12.05.2009

Bazófia




















Vende mais o Ricardo Araújo Pereira vestido do que uma portuguesa qualquer toda nua. Desvirtuem o produto mas não venham cá com bazófias.

Leãozinho (o meu desencontro com Caetano)


















Em três ocasiões, separadas por intervalos de cerca de dez anos, Caetano Veloso e eu estivemos na presença um do outro. Primeiro em Nova Iorque, no Ballroom (uma sala tipo café-concerto), aquando do espectáculo "Circuladô ao vivo", eu e alguns amigalhaços sentados na mesa mais próxima da mesa da mulher de Caetano. Depois no fórum Fnac Colombo, na apresentação do concerto encomendado a Caetano, Abrunhosa e Paulino Vieira para a Expo'98. Por último ontem, na Casa Fernando Pessoa. Pedi-lhe que me assinasse um livro, "Verdade Tropical", e um disco, "Araçá Azul". Falei-lhe em muito breve destes remotos e sucessivos encontros, enquanto o músico baiano repetia o gesto mecânico com a caneta, indiferente à minha conversa. Caetano tinha um ar esgotado. Nunca havíamos estado tão próximos. Nunca o desencontro foi tão acentuado. Mas a gente não aprende, né?

12.04.2009

A Nogo abre terça-feira



















Visite o site da Nogo. Apareça na terça às 19h.

12.03.2009

O triunfo do escárnio


























[...] A Mokhtar todos os governos eram completamente indiferentes, fossem eles eleitos ou impostos pela força das armas, pois todos provinham do mesmo molde e eram compostos pelos mesmos malfeitores. Era, pois, estúpido querer derrubar um governo, para depois ficar diante de outro pior do que o anterior. E na obrigação de recomeçar indefinidamente esta comédia grotesca. Para Mokhtar, a única maneira de combater um regime político só podia conceber-se no humor e no escárnio, longe de toda a disciplina e das fadigas que qualquer revolução geralmente implica. Na verdade, tratava-se de conseguir uma distracção fora das normas e não uma prova debilitante para a saúde. O seu combate contra a ignomínia reinante não tornava necessário um grupo armado nem mesmo uma sigla que referisse a sua existência. Era um combate solitário, não uma congregação de massas ululantes, mas uma operação prazenteira de salvação da humanidade, sem lhe pedir a opinião e sem esperar uma autorização vinda do céu. Há muito tempo que Mokhtar decidira que o seu papel na vida seria o de dinamitar o pensamento universal e os seus miasmas fétidos que atulhavam há séculos o cérebro fraco dos miseráveis. Esmagadas e fragilizadas, as massas humanas ainda sobreviventes à superfície do Globo foram levadas a acreditar em tudo o que lhes conta uma propaganda que ofende em permanência a verdade. Afigurava-se-lhe com nitidez que o drama da injustiça social só desaparecerá no dia em que os pobres deixarem de crer nos valores eternos da civilização, um palmarés de mentiras deliberadas, programado para os manter para sempre na escravidão. Por exemplo, a honestidade. Os pobres estão convencidos de que a honestidade é a virtude fundamental que lhes vai salvar a alma das chamas do inferno, e esta crença condena-os a uma miséria endémica, enquanto os ricos, cujos antepassados inventaram a palavra, sem jamais terem acreditado nela, continuam a prosperar. É certo que esta análise, aparentemente pueril, da economia capitalista, não satisfará os espíritos sérios, inimigos implacáveis da verdade, porque o seu simplismo impede-os de parecer profundos. [...]

Tradução: Luís Leitão
Revisão: Carla da Silva Pereira


A Antígona ofereceu aos seus leitores as primeiras páginas do romance [Uma Época de Filhos de Cães] para sempre inacabado de Albert Cossery, que morreu aos 94 anos, em Paris, em Junho de 2009, no hotel onde vivia há mais de sessenta anos. Estas páginas manuscritas foram encontradas no seu quarto e constituem o princípio de um romance sobre o qual o escritor trabalhava, escrevendo, segundo ele, uma linha por semana…

Neko, à margem da lei


























Ampliado é ainda mais bonito.

11.30.2009

E quem não salta...
















Está a ser divulgada a lista de concertos dos Them Crooked Vultures, com início na Europa e que será retomada no ano seguinte do outro lado do mundo. De Portugal (Espanha ou França), nem sinal. Apetece pegar nos nossos promotores de concertos, atá-los num saco, e mandá-los à merda.

O meu bloomsday






















She wanted only to be free of him and to satisfy the common enough human wish to move on and try something else. [p. 127]

Permitam-me a imodéstia. Não tenho a pretensão de ocupar um minuto que seja a cadeira do sr. Harold Bloom. Longe disso. Mas deve haver por aí muito escritor cuja obra completa não atinge em nenhum momento o poder de síntese desta frase, junto com a sua capacidade de ir fundo na natureza humana. Uma frase recta, implacável, sem vírgulas. A Philip Roth bastaram as 140 páginas de uma novela, The Humbling, que em minha opinião não está sequer entre os melhores livros que li dele. Quando alguém afirmou que Deus se encontrava nos pormenores, devia estar a pensar sim no génio dos homens.

Arquivo do blogue

Acerca de mim